sábado, 9 de outubro de 2010
Um soneto
Meus olhos serão teus, negra colina,
vestiu-te o dorso a lua, pálido zero,
capaz de revelar na noite albina
a paz serena e sã, meu desespero.
A luz traça um contorno e alucina
as árvores de mapa tão austero.
O que era solidão vira rotina,
onde arava o mistério, ora o mero.
A música do vento prende forma,
o abismo da vereda se desvia,
na casinha distante reina a norma...
Quando, negra colina, na noite imensa,
das minhas nuvens prenhes de poesia,
virá a tempestade mais intensa ?
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Meu Pai
Meu Pai, onde tu estejas,
tua luz será a minha,
luz guia e tão vizinha,
infinito que visceja.
Tudo o que meu olhar veja:
povos, mares, cidades,
veja sempre a verdade,
vinho da tua bandeja.
Assim eu sigo caminho
e vive comigo a certeza
que de ti herdei o porte,
o passo firme, a nobreza.
Deus me deu esta sorte,
a tua benção e carinho!
p/José Vieira Lima Filho
06.10.1921 30.09.1990 + in memoriam
quinta-feira, 26 de março de 2009
Um manifesto para Rosana
Para mil direções as coisas fluem.
O homem não torna-se diferente da natureza por ter dúvidas.
Não estranhe;
há tantos sentimentos em uma só pessoa:
difícil saber qual o mais forte,
qual se aventura a ser único.
Eu já não quero saber das respostas,
ver de antemão as saídas.
Só quero ter da estrada
a certeza que caminho.
As setas continuem a indicar direções:
cidades a quilômetros de distância.
Eu simplesmente ando
por todos os lados.
Por todos os lados há vida.
Todos os lados : a Vida.
quarta-feira, 18 de março de 2009
João, sempre João
Quando eu era pequenininho do tamanho de um botão
Cantava sempre "O Barquinho" que aprendi com João
Agora que sou bem grandinho e toco até violão
Eu vivo cantando "O Barquinho" que aprendi com João
Essa é uma playlist de gravações caseiras do João Gilberto que circulou na rede. Tem coisas lindas!
quarta-feira, 11 de março de 2009
O Menino Invisível
Monólogo da Velha
Benvindo à nossa casa,
quem nela sempre demora
Vívidalegriaquimora:
no coração ardem brasas.
Benvindo à nossa casa,
quem lhe deu tanto carinho,
vento invisível no ninho
do beijaflor bate asasas.
Seja benvindo, menino
do viso sempre alegre,
correndo feito uma lebre,
matreiro deusdodestino.
Seja benvindo, menino
que semprestevecomigo,
teu peito nu, meu abrigo,
teu desalinho, meu tino.
bulindo no caldeirão,
misturo co'a solidão
minhamargura de vida.
Eternos anos sozinha,
Entresonhos e magia,
na deserta companhia
Da eternidade mesquinha.
Menino, vem com teu grito,
abate o velho direito,
trasmuda o largonoestreito
desdiz o dito inaudito.
Menino, vem com teu grito,
pois se o teu dorso não vejo,
ardonoadorno, harpejo
a tez do teu infinito
Em 1983/1984 adaptei para teatro, a pedido de Humberto Pedrancini, o conto de Bradbury, O Menino Invisível. Ganhamos um prêmio de montagem da Fundação Cultural de Brasilia e Humberto dirigiu o espetáculo. Eu participei como ator. Na época, escrevi este monólogo em versos, que nunca mostrei ao Humberto e que pensava transformar em canção, o que nunca fiz. Dias atrás, criei esse blog . Como tinha que dar um nome, chamei-o O Menino Invisível. Ai me lembrei desse monólogo que tinha dedicado à minha tia Eloina e ao meu primeiro sobrinho e afilhado, Gregório.
